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Palavra da Direção

        

Palavra da Direção – Gestão 2018 – 2022

 

 

Senhoras e Senhores.

 

         Quando se propõe a concorrer à reeleição a gente coloca para escolha da comunidade, nossa figura humana, nossos sonhos, nossa dedicação, nosso “perder a paciência” e muitas outras características de concepção política.

 

         Mas, somos muito mais escolhidos pelo que produzimos como gestores e assim, se fomos reconduzidos é que entre erros e acertos a balança pesa mais para os acertos. Não quero aqui elencar as muitas coisas que estamos realizando.

 

         Neste momento, entretanto, quero fazer algumas reflexões, não de nossos acertos, mas sim de nossas deficiências e muitas vezes de nossos fracassos.

 

         Nós fazemos parte de uma sociedade conservadora e, na realidade, vivenciamos contradições que, muitas vezes, não conseguimos explicita-las neste espaço universitário dito plural.

 

Nós, no geral não contribuimos para um Brasil solidário, mais justo, mais fraterno, mais igual, mais Soberano.  Não conseguimos sair do nosso nicho tecnológico do ensino, da pesquisa e da extensão.

 

Não conseguimos incentivar a prática do exercício do contraditório e da tão propalada pluralidade fora do nossa pseudo intelectualidade de formação profissional e técnica.

 

Podemos dizer que fracassamos por não tem conseguido, somar com os movimentos sociais em alertar a comunidade que o Brasil está sendo campo experimental de comprovação da Teoria do LawFare.

 

Ironicamente, o Senador Requião até está propondo uma lei de PERDÃO para aqueles que pedem desculpas por terem utilizados CAIXA DOIS e assim, eitar esta coisa de dois pesos e duas medidas.

 

Também que fomos deficientes  quando não nos demos conta que o movimento de FakeNews poderia interferir na nossa Democracia. E quem sabe até somos cumplices do fato de apenas 34% dos brasileiros acreditam na Democracia.

 

De mostrar, além da técnica,  que o mundo passa por novas formas de domínio do capital, coordenado por esta organização The Moviment (O Movimento) de Steve Bannon que promove o nacionalismo econômico e populismo de direita. Aliás, que somos um coletivo dentre os 120 milhões de usuários do Watssap no Brasil.

 

         Ao contrário do que se possa imaginar, a Universidade não forma cidadãos pois estes são forjados nos espaços sociais, nas ruas, no engajamento das lutas libertárias, na leitura da realidade social do país que vivemos. 

 

Nós somos referenciais quando formamos Técnicos Capacitados, que exercitam, como nós, a Meritocracia pois é nela que nos apoiamos para fugir da realidade e exercitarmos os nossos valores egocêntricos e privados.

 

Nós fazemos Ciência Aplicada e esta Ciência tem lado, serve a alguma ordem, a algum sistema, alguma lógica de dominação e, muitas vezes, são de desconstrução da nacionalidade, de desconstrução da Solidariedade entre nossos irmãos. Quem sabe até sem nos darmos conta, servimos a forças de destruição da Soberania Nacional.

 

Para mim a tal “Universidade Formadora de Opinião” não existe e tem sérios limites em determinadas áreas de conhecimento técnico e científico.

 

Quem sabe nas Humanidades, pela necessidade de leitura de teorias contraditórias de Sociologia e Economia Política a realidade seja diferente, mais compromissada, menos individualista, mais nacionalista.

 

Nós somos ouvidos quando fortalecemos a concepção de Estado Mínimo e de o Estado está inchado.  Não temos voz ou não nos fazemos entender quando alertamos do perigo que é um Estado Mínimo e seu contraponto para um Estado de Bem Estar Social.

 

José Saramago, um dos maiores intelectuais que nós tivemos nos últimos tempos escreveu um livro Ensaio sobre a Cegueira (1995) e que tive, quando fazendo meu Doutorado ouvi-lo na Espanha.  Seus personagens não possuíam nomes, características físicas nem comportamentais.

 

Ele cunhou o termo “cegueira branca” usado para representar o egoísmo, a imparcialidade, o medo, a covardia, a raiva e outros sentimentos que cegam o ser humano. Saramago nos dá primeiro tapa na cara ao dizer que somos leitores apáticos da realidade.

 

Nós não fomos capazes de incentivar a discussão sobre a desnacionalização da cadeia do Petróleo e Gás. O Pré-Sal sendo vendido a preço vil desconsiderando o investimento social de décadas em Ciência e Tecnologia, do povo brasileiro.

 

         Em dois anos de Golpe se modificou o Marco Regulatório de Partilha, aliás modelo da Noruega, com sua estatal Statoil comprando reservas.  Se privatizou já 75% do Pré-Sal e agora, semana passada, além de desvincular a aplicação dos Royeltes do Petróleo da aplicação na Educação se aprova a venda das Reservas Onerosas da Petrobrás.      

 

         No último leilão do Pré-Sal vendemos 5 bilhões de barris de reserva a preço de 26 centavos o barril.

 

E na “nossa seara” costumo brincar, parafraseando Gilberto Freire (Livro de 1933), que normalmente formamos técnicos com o perfil de “capitães do mato” da Casa Grande que fortalecem a relação capital trabalho e a exploração desordenada dos recursos naturais.

        

Formamos Técnicos altamente qualificados no Manejo de Solos e Bacias Hidrográficas, mas também outros que defendem a Privatização do Aquífero Guarani, por mais que nossas disciplinas de Hidrologia trabalhem os conceitos de Planos Hidrológicos de Bacias Hidrográficas. 

 

Até mesmo quando fazemos Seminários Técnicos de transferência de tecnologia de irrigação, de uso racional da água que, diga-se, somos referenciados nacionalmente, muitas vezes, não abordamos a água como um recurso de Segurança Alimentar.

 

Não nos damos conta que atualmente 30% da água para abastecimento público provém desta fonte de água subterrânea.

 

A Amazônia para nós, muitas vezes é problema para expansão das fronteiras agrícolas.

 

Mas não adianta explicar que a Amazônia recebe uma Precipitação 14,4 trilhões de m3 de água por ano e que a transpiração da Floresta representa 61% desta água e mostrar que a retirada da floresta deverá produzir profundas alterações do Ciclo Hidrológico do Brasil central e Meridional (Rios Voadores), produtores de soja, milho e outras culturas agrícolas.

 

Nós temos dificuldades em mostrar ao Governo, os atuais níveis de primarização das exportações agropecuárias do Brasil, como por exemplo, que:

82% das exportações de soja são de grãos.

88% das exportações de café é de café verde

99% das exportações de milho é em grãos.

84% das exportações de carne bovina é de carne in natura

90% das exportações de frango é in natura

91% das exportações de carne suína é in natura

 

Ainda temos muito que avançar para que o Ministério da Agricultura entenda que não podemos conviver com 60 milhões de hectares das pastagens degradadas e uma baixa média de apenas 1,2 cabeças de gado por hectare. No período de agosto a outubro deste ano o desmatamento, principalmente para atividade pecuária, na fronteira com o Acre e estado do Amazonas cresceu 273%.

 

Nós também não somos capazes de compatibilizar a visão da agricultura de escala com a AGRICULTURA FAMILIAR de onde 11 milhões de brasileiros tem sua renda e que produzem 73% do nosso alimento.

 

Nós temos dificuldades técnicas e políticas em conversar sobre a Violência no Campo.

 

Nesta última quarta-feira, uma liminar de despejo estará desalojando 450 famílias (renda para cerca de 2 mil pessoas) sem-terra do acampamento Quilombo Campo Grande, no Sul de Minas Gerais, onde os agricultores estão acampados há mais de 20 anos e produzem em larga escala produtos de agroecológicos, dentre eles o Café Guaií, com safra anual de 510 toneladas de café.

 

O Brasil, dentre 22 países estudados, foi o país mais letal para ativistas e defensores da terra e do meio ambiente em 2017. Foram 57 ativistas ambientais assassinados neste ano, dos quais 80% defendiam os recursos na Amazônia.

 

Nós da Engenharia Florestal, somos referência técnica para o Setor Florestal, mas não somos referência ambiental florestal quando afirmamos que podemos ter um desenvolvimento sustentável compatível e harmonioso respeitando as áreas de preservação permanente e áreas de recarga de bacias hidrográficas.

 

Bem pelo contrário, somamos com a ideia de redução das áreas de Unidades de Conservação e das Reservas Indígenas.

 

Nós fracassamos na discussão da Cultura quando não defendemos a multidisciplinaridade das expressões culturais, respeito às minorias, aos povos indígenas e quilombolas.

 

Estamos alheios à discussão da reforma da Previdência que troca o princípio de SOLIDARIEDADE pelo da CAPITALIZAÇÃO Individual, que no Chile (implantado pelo Governo Prinochet) está levando os IDOSOS ao suicídio.

 

No Brasil, registrados, são mais de 11,6 mil suicídios por ano, incluindo os Idosos. Mas copiamos o Modelo Social dos EUA onde, são registrados 30 mil suicídios por ano e que pesquisadores afirmam que está ao redor de 50mil por ano.

 

Os pensadores econômicos atuais sabem que aplicação de Diretrizes da Ortodoxia Liberal em países em desenvolvimento só se efetiva com quebra de preceitos democráticos e institucionais e nós da Universidade Pública muitas vezes não nos damos conta de que estamos formando profissionais para, a pretexto da eficiência do privado em relação ao público, desconstruir uma proposta de país solidário, social e economicamente justo.

 

Todos sabem que para que a Ortodoxia Econômica Liberal seja implantada é necessário haver um retrocesso na participação popular nas esferas de decisão e de construção de um país.

 

         A “Coroa” dos dias de hoje são as megacorporações multinacionais, os grandes Bancos e o Rentismo.

 

O Estado democrático, prestador de serviços e garantidor do bem-estar social está desaparecendo. O conceito de “propriedade privada”, como está na Constituição não precisa ter função social.

 

Nós fazemos parte da população do Terceiro País mais SEM noção do mundo, segundo Pesquisadores da Inglaterra. Somos medalha de Bronze, ficando atrás apenas do México e da Índia.

 

E como acometidos da SINDROME DE ESTOCOLMO elegemos dirigentes que vão contra nossos princípios HUMANITÁRIOS e completamente contra a valorização da Universidade Pública.

 

Ao nosso redor as notícias não são nada boas.

 

Quem luta pelo meio ambiente está desanimado porque as estimativas do desmatamento da Amazônia e a exploração dos nossos recursos naturais nunca foram tão ruins.

 

Quem luta pelos indígenas está esmorecido diante das propostas que cancelam demarcações e direitos conquistados a duras penas desde a Constituição de 1988.

 

Quem luta pela paz está infeliz com a pregação do ódio e não dorme à noite preocupado com a liberação irresponsável do porte de armas para um povo que não sabe manejar um título de eleitor.

 

Quem acredita nos direitos humanos está recriminado e cabisbaixo, com medo de retaliação por exercer a liberdade de expressão.

 

Quem acredita na verdade, desfalece em meio aos pacotes de memes e fake news que deságuam pelas redes sociais em enxurradas de ignorância e insensatez.

 

Estudantes Universitários mulheres estão lendo, estupefatas, os recados do machismo e da misoginia que enchem as portas de banheiro das universidades em resposta aos incentivos propagados pelo pessoal que está chegando com pompa no andar de cima do poder.

 

Meus amigos LGBT estão sabendo dos perigos e tentam armar estratégias de sobrevivência em meio aos odores da homofobia, apoiada nas mentiras do tal “kit gay” que nunca existiu e nas imbecilidades da cura gay que, certamente, será pauta central do absurdo Ministério da Família.

 

Meus colegas, assustados com a hipótese de criação das disciplinas de Criacionismo e Educação Moral e Cívica nas Universidades.

 

Meus amigos negros, calejados pelo preconceito, temem o pior.

É nesta realidade Brasileira que se insere o Setor AgroFlorestalPecuário.

 

É aqui, frente a esta realidade, que nós Professores e Técnicos dos Cursos e Programas de Pós-Graduação do Setor de Ciências Agrárias estamos.

 

Termino esta minha fala com uma frase do linguista Gustavo Conde.

 

“Será preciso muita arte, muita música, muita cultura, muita ciência, muita coragem para atravessarmos esta travessia do Medo”.

 

E para finalizar, um poema de uma Poeta exilado pela Ditadura de Franco e que morreu de angústia na França.

 

Caminhante, são suas pegadas o caminho, e nada mais.

Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar.

Ao andar se faz o caminho e ao voltar os olhos para trás

Se vê a marca que nunca há de voltar a pisar

Caminhante, não há caminho

Senão estrelas no mar.

 

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Prof. Dr. Amadeu Bona Filho

Prof. Dr. Nivaldo Eduardo Rizzi

Gestão 2018/2022

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